segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Eu Acuso

Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes


Com autoria de Igor Pantuzza Wildmann, e publicado pela www.consae.com.br , aproprio-me para publicação em meu site do texto abaixo que pode ter o título EU ACUSO.

‘Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice’. (Émile Zola)
‘Meu dever é falar, não quero ser cúmplice’. (Émile Zola)

Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que... estudar!).

A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro.

O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.

Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática.

No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando...

E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”

Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno–cliente...

Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.

Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.

Ao assassino, corretamente, deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público.

A acusação penal ao autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca;

EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;

EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos” e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;

EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;

EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;

EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;

EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;

EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;

EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;

EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;

EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;

EU ACUSO os que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito,

EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;

EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição.

EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;

EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;

Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos -clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.

Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.

A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”

Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.


Igor Pantuzza Wildmann
(Advogado – Doutor em Direito. Professor Universitário)

domingo, 21 de novembro de 2010

Pode ?

Prof. Roney Signorini – Consultor Educacional
Roney.signorini@superig.com.br


Dia desses a Fuvest deu publicidade da relação de candidatos inscritos ao exame de 2011
oferecendo o número de vagas, o volume de inscritos por curso e a relação candidato/vaga.
Nenhuma novidade se comparada à mesma relação de 2010 e anos anteriores, despontando, como cultural, as mesmas e sempre carreiras campeãs: medicina, direito e administração deixando na rabeira do processo todas as engenharias e licenciaturas.

A delicadeza na análise reside na persistência social de tais escolhas quando o mercado está
exigentemente ávido por engenharias — civil, elétrica, mecânica, alimentos e ambiente.
Agrava o fato de a sociedade só enxergar o umbigo, ou seja, o que hoje o mercado reclama, sem no entanto haver qualquer preocupação com o futuro. Em outras e simples palavras, o mercado de trabalho não será o mesmo daqui a quatro ou cinco anos quando então os ingressantes de agora serão os egressos de amanhã.
Se há culpados nesse cenário pouco ou nada importa mas o todo social vai pagar pesado
pedágio pela incúria. Mas, se existem culpados, há toda uma cadeia em cipoal determinando há muitos anos aquelas escolhas e o exemplo maior fica para as escolas de Direito no país que já somam um montante maior que todas as escolas no planeta. Pode ?
A que se atribuiria o desinteresse pelas engenharias, sobretudo pelas licenciaturas ?

Quanto às primeiras, a falência do ensino de matemática pode explicar ? Com relação às segundas, o baixo salário nas escolas públicas — maior campo de empregabilidade —também explicaria isso ?
Se houvesse redução drástica no volume de vagas, tanto nas escolas de Direito como Administração, pela dificuldade de acesso aí inerente, faria a juventude migrar para outros cursos ?
Há influências determinantes tanto para a procura dos cursos “campeões” como aos “derrotados”, por exemplo, por contaminação familiar, durante a educação do médio, em cursinhos, etc. etc. ?
Insisto na escolha temporal: o ingressante só estará formado daqui a quatro ou cinco anos e lá na frente, com certeza o quadro será outro. E com mais absoluta certeza ofertando vagas de emprego em proporção decuplicada às de hoje, nas áreas ora desconsideradas.

Nossos poucos cursos de engenharias e licenciaturas são poucos e jurássicos. Para as “engs”
faltam docentes e laboratórios, para as “licencs” inexiste norte magnético com formações
capazes, com novas tecnologias pedagógicas. Elas sequer têm no currículo disciplinas voltadas
para a EAD. Pode ?

Apenas para ilustrar, a Fuvest apresenta 560 vagas para Direito com 10.668 candidatos mas Pedagogia oferece 180 vagas para 995 candidatos, enquanto que Geografia oferta 170 vagas para uma procura de 778 candidatos, História contabiliza 270 vagas para 1.659 candidatos.
Em Letras, com 849 vagas ( um sucesso ) tem 3.333 candidatos (lá vai a língua ladeira abaixo ).
O Brasil, hoje, com seu rebanho, ocupa o honroso primeiro lugar em exportação de carne mas as vagas de Medicina Veterinária somam só 140 para uma procura da ordem de 2.152 candidatos. Na ressalva, Química-Licenciatura tem 70 vagas para 269 candidatos. Pode ?

As interrogações colocadas são para o número de vagas como para o de candidatos. Pode ?

Definitivamente, não temos um plano nacional de educação mas o para o próximo decênio ( 2011-2020) está se discutindo isso, embora o anterior (2001-2010)tivesse falhado em 66% de seu escopo. Com isso, no Congresso a questão ferve ou amorna, o CNE quase descarta sua responsabilidade, a iniciativa privada, pifiamente introduz na sua agenda de discussões, o MEC, como peão condutor de boiada conduz as rezes. Pode ?

Até aqui, tudo indica que as escolas superiores, sobretudo as privadas, não têm um “learning center”, reduto de discussões curriculares e programáticas, com influências majoritárias sobre
a oferta de cursos que interessem às instituições e ao país, para deixarem de vez as comodites e avançar com tratores sobre as manufaturas, a exemplo de um Japão. Prevalece a síndrome do umbigo. Ninguém preocupado e interessado em atravessar os séculos como inúmeras escolas européias e americanas, para não falar nas asiáticas.

Como diz Ryon Braga ( Revista Ensino Superior -SEMESP), não é que as escolas estão interessadíssimas nos meios mas não nos fins, pouco importando o amanhã mas preocupadíssimas com o presente. Pode ?
A propósito e para finalizar, quantos jovens você conhece que tiveram a escolha/opção acertada de cursos superiores com fundamento de vocação, de felicidade, de realização pessoal e profissional ?
No entremeio, como vai a educação no fundamental e médio ? Ah! Uma beleza! Na base do não quero nem que Deus me ajude porque pode estragar. Só o Diabo tem a solução.
Cachorro sem rabo não passa sobre pinguela, ou, passarinho que vive ao lado de morcego acaba dormindo de ponta-cabeça.

Mas afinal onde está o problema, como última pergunta ?
Arrisco dizer que é a mais alta falta de informação. A desinformação total e absoluta, decorrente da ausência de leituras, seja de jornais, revistas, TV e rádio que apregoam sistematicamente como “surfar o mercado nas ondas das oportunidades”, conforme Roberto Macedo.

Para arremate, envolvido com seletivo diferenciado, agendado e de entrevistas complementares, sujeitando os seletivandos a um questionário “básico” de entrevistas, as porcentagens de distanciamento dos noticiários de jornais e revistas, afora os de TV e rádio, os resultados foram aterrorizantes, em clima de globalização: menos de 10% estão lendo jornais e revistas semanais, assistindo aos telejornais ou ouvindo notícias em rádio. Tem de tudo que não importa para a profissionalização e empregabilidade: literatura espírita, de auto-ajuda, gospel, romances, sertanejo, axé e outras modalidades musicais. E o que é pior, “os caras” da geração Y estão aí, na porta de entrada das nacionais ou não, com um “iPod” pendurado nas “orelhas”, Pode ?

Mas o MEC, por derradeiro, via Enem, entende que não podem participar do certame os que
foram reprovados. Por que ? Submetam-se a quantos seletivos aparecerem até darem respostas aprovacionais. Qual o problema ? Acertou tá dentro !

Por acaso, o MEC/CNE restringe o número de vestibulares/seletivos em instituições particulares, impedindo que o candidato não se submeta ao vestibular/seletivo seguinte, mesmo que ele ocorra na próxima semana . Qual o problema ?

Não por acaso, em Brasília, tem gente se refestelando nos melhores restaurantes da cidade, após o expediente: Felicitá, Famiglia Pomodoro, Savassi, Taí Delivery. Eta nóis!!!!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Calandra e LinoType

Prof. Roney Signorini - Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br


Quando dei os primeiros passos no jornalismo, na década de 60, caí no poço da realidade profissional e do primitivismo secular da impressão de notícias e reportagens.
Sem pauta definida, saía às ruas para coletar fatos e transformá-los em notícias.
Na volta, sentado diante de uma Remington, redigia o apurado entregando as laudas para os linotipadores — profissionais que “digitavam” os textos em máquinas LinoType.

Os tempos eram outros, claro, com jornalismo de imersão profunda e aguardava-se cansativamente o instante em que “aquelas maravilhosas máquinas” vomitassem as linhas (a uma ou duas colunas) para seguirem até a revisão(?). A revisão era feita por qualquer semialfabetizado, pois o que importava era a fidelidade do texto na lauda em comparação com o que havia sido digitado. Nada de correção do vernáculo, sugestões de propriedades vocabulares, etc. etc. Esses “revisores” nunca tinham ouvido falar de Napoleão Mendes de Almeida, nem do Aurelião, nem de Cretella Júnior. Simplesmente, o que estava na lauda deveria estar no “copião” para a revisão.

Após ”digitado”, o texto era levado para a calandra — um cilindro de aço envolvido em feltro que rolava manualmente em dois trilhos, sobre o texto em chumbo(linotipado).
Era aí que entrava o “revisor”. Se houvesse algum problema a linha com o descuido voltava para a linotipia, ocorrendo, então, a emenda.
Tudo nos conformes, o conjunto linotipado seguia para a mesa de montagem da página.
No meio tempo, habilidosos gráficos compunham as manchetes ou ilustrações (clichês) e os títulos com as “caixas” — gavetas que tinham tipos maiores (até garrafais) para encimar os textos redigidos. Pelo “timing” da carruagem já passava de uma da manhã.
Hoje isso não existe e é só história de velho jornalismo, mas o relato deve servir aos modernos que trabalham com um PC montando seus textos, matérias e reportagens via algum PageMaker da atualidade, sem o cheiro insuportável do chumbo derretido e das tintas vagabundas, nauseantes.

Assim é que digitado o texto no PC (terminal da redação), ele segue para uma equipe de diagramação — que também usa um paginador sofisticado alocando o material com absoluta precisão de modo a impedir que assunto de polícia caia no caderno de economia.

Até aqui providenciei uma aula de jornalismo, para principiantes, com o objetivo de deixar clara a inadmissibilidade do ocorrido na última prova do Enem. Vai além da incapacidade, da incúria e da irresponsabilidade. Afinal não estamos falando de qualquer graficazinha do interior, do sertão dos confins, que, mesmo assim, pagina e diagrama um jornal, tabloide ou standard, sem equívocos.
Como pode, uma gráfica do porte da RR Donnelley, com a mais alta e sofisticada tecnologia editorial e de impressão, promover o desastre dos dias 6 e 7 de novembro no Enem? Tem gato na tuba e está miando no tom de lá menor.

Na contrapartida, o Tribunal Federal do Ceará, acolhendo manifestação do Ministério Público, manda anular os exames e ainda proibir a divulgação do gabarito, mas o MEC contesta a medida e o presidente Lula elogia o Enem na segunda-feira, embora hoje admita a possibilidade de novo exame.

Não bastasse isso, o MEC quer processar o repórter que divulgou o tema da redação por um celular, dentro do sanitário de uma escola de Recife. E o desplante chega pela editora-chefe do site do Jornal do Commercio, Benira Maia Barros, afirmando que não estava planejado o repórter divulgar o tema da redação. Mas que doido! Com a informação em mãos, não foi o jornal que a publicou? Não fosse a efetiva intenção, guardassem a informação. Coisa mal contada, não é mesmo?

Diz o MEC que técnicos vão esclarecer por que a aplicação de novo exame aos prejudicados em nada afetará o direito da isonomia, pois a espetacular TRI – Teoria da Resposta ao Item – resolve o problema, quanto às eventuais dificuldades das questões propostas, embora não fale sobre as eventuais facilidades contidas nelas. Afinal, o propósito é reprovar, avaliar ou aprovar?

Digamos, para exemplificar, que eu, candidato, não tenha sido classificado na primeira oportunidade e me julgue apto a dar respostas aprovadoras ao segundo teste — alternativo para os que tiveram problemas no caderno amarelo, como fica?
Então, é possível justificar o desastre e eventual nova proposta de exames com base na TRI, como sendo bálsamo ou placebo para milhões de criaturas tão frustradas que restaram desde domingo, totalizadas pelos primeiros interessados e familiares?

A gráfica diz que assume a responsabilidade.
Qual? A de refazer as 4.6 milhões de provas? Com quais recursos, dela própria ou corroborada pelo MEC que despendeu milhões, até aqui, com todo o processo?
E as Federais, burladas no processo, que não terão(iriam) recursos, agora, para bancar seus próprios vestibulares?

A propósito, aos ausentes nos dias 6 e 7 seria permitido ingressarem no certame da segunda proposta? Não é nada? Quase 30% foi o índice de abstenção, perto de 1.300 milhão, o que de certo modo “ajuda” muito a quem compareceu. Grosso modo, o candidato estaria disputando vaga com os menos 30% de ausentes. Quando ela – eventualmente – se dará, em dezembro ou janeiro ? Esquece! As aulas de 2011 iniciam-se em 01 de fevereiro para se poder cumprir os legais e exigidos dias letivos semestrais, conforme a LDB.

Segundo a educadora Maria Helena Guimarães, uma das criadoras do exame em 1998 durante a gestão Fernando Henrique Cardoso (PSDB), “a mudança do objetivo do Enem – que passou de avaliação do perfil dos estudantes do ensino médio para seleção de alunos para as universidades e institutos federais a partir de 2009 – tornou a prova vulnerável e cobiçada – um objeto de desejo muito valioso”. Querendo dizer (?) que é impossível ou muito mais difícil ter controle de todas as etapas do processo, ou seja, antes era simples avaliação do alunado, das escolas, dos programas/conteúdos mas agora é disputa mesmo.

Laurentino Gomes, autor do livro 1808, está doidão dentro das calças pois sua obra foi citada indicando que a Abertura dos Portos se deu em 2010, quando ocorreu duzentos anos antes. Pode?

De boas intenções e gente que se achava insubstituível o cemitério está lotado.

E.T. O IBGE informa que o país conta hoje com mais de 6.500 municípios mas o Enem só ocorreu em 26% deles, ou seja, 1.700 cidades. Dá pra imaginar os transtornos de deslocamentos dos estudantes. Que pena!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Pente Fino nos Clippings

Prof. Roney Signorini – Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br

Nos últimos dias de agosto os clippings de material educacional ficaram recheados de notícias, senão provocantes um tanto preocupantes.
E nada é novidade lembrando Sísifo que padeceu empurrando uma pedra morro acima, que rolava abaixo, sem nunca conseguir alcançar o topo. Tarefa que foi imposta por ter mentido.
Na presente análise, é claro, não que a educação seja a mentira mas as autoridades nacionais de ensino, os sísifos da educação, continuam a perpetrar o mesmo trabalho do condenado na mitologia. É o que parece pelas notícias que seguem, coletadas em jornais e revistas.

No Rio de Janeiro, portal Terra, pelo projeto do MEC a proposta é de preparar/capacitar diretores, professores e coordenadores na sua quarta edição, ampliando o curso de prevenção ao uso de drogas nas escolas públicas. Nas edições anteriores somente aos profissionais que atuavam nos anos iniciais do ensino fundamental mas agora extensivo ao médio. Podiam aproveitar a chance e tratar um pouco sobre o tema pedofilia. Com todo o cuidado porque pode haver usuários de drogas entre docentes como também os adeptos de “favores infantis”. São 25 mil vagas para todo o Brasil. É pouco e não é nem remediar.

De Brasília, via o Estadão, vem nova Resolução do Cons. Federal de Biologia (CFBio) que está dificultando a obtenção do registro profissional para alunos formados a distância se o curso não for reconhecido. Nada mais justo, correto e legal. E não vai ser fácil reconhecê-los, portanto, cobertos de razão. Como sempre a notícia peca por não indicar quais instituições de ensino estão perpetrando diplomas sem o reconhecimento do curso.

Ainda do Estadão, a leitura reitera informações de que o problema da formação de pessoas no País é gravíssimo pois na creche e pré-escola só atingimos a metade do previsto no PNE, cujo período está acabando este ano. No fundamental o atraso é de 20 anos em relação ao proposto na Constituição de 1988. Atualmente, uma em três crianças deixa o sistema sem completá-lo. Ao final do ensino médio a evasão atingirá metade dos estudantes, resultado muito pior do que a nossa realidade econômica e demográfica aceita.
Quanto ao ensino superior, continuamos com taxas de atendimento próximas à metade da
existente em nossos vizinhos. Ou seja, caos completo no presente e sobretudo no futuro.

Do mesmo Estadão, a notícia que as empresas estão com muita dificuldade para encontrar
profissionais qualificados, tudo decorrente da formação que os jovens não estão obtendo porque as escolas insistem na não formação para os mercados, com currículos e conteúdos
irreais para o escopo principal: a empregabilidade.
Das 5.490 vagas para profissionais com nível superior, oferecidas pelo sistema este ano, só 893 foram preenchidas, ou seja, 16,3%. Até dezembro vamos chegar a novo recorde de sobra de vagas.

Em outra nota, pelo viés, a Confederação Nacional da Indústria(CNI) contratou junto ao Ibope a pesquisa “Retratos da Sociedade Brasileira: Educação” constatando que a maiorias dos brasileiros não acredita que a escola prepare para o mercado de trabalho. No levantamento, 40% dos entrevistados acreditam estar o aluno razoavelmente preparado, após o médio ou superior para a empregabilidade. Enquanto apenas 14% dos entrevistados com ensino médio completo acreditam que os estudantes saem da escola “bem preparados”, para conseguir um emprego estável. O índice chega a 30% na avaliação do nível superior. No mais, 61% apontam a qualidade da educação no Brasil como um dos gargalos que impedem o nosso desenvolvimento.

Pela Revista Veja pode-se ler a máxima isonômica tirada também da pesquisa Ibope/CNI na qual os entrevistados alegam que escola boa é a escola paga. E, na convicção deles, a descrença na capacidade de o estado brasileiro suprir as necessidades nacionais. Na visão do professor Remi Castioni, da UnB, o raciocínio do cidadão é claro: “Se saúde, política e transporte são ruins, então a educação pública também é, necessariamente, ruim”.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

PROPOSTA PARA OS PRESIDENCIÁVEIS

São Paulo, 25 de agosto de 2010
Prezado(a) candidato(a)

Dentro das limitações impostas para apresentar uma sugestão educacional ( 10.500 caracteres – Arial 12 ), fico à disposição para ampliar em outro documento o que trato abaixo
( roney.signorini@superig.com.br ):

Lembrando a máxima de “quem veio primeiro o ovo ou galinha ?”, me arrojo em afirmar que
a primeira preocupação de V.S. deve ser, por ordem, focar a máxima atenção nos cursos de Pedagogia e Licenciaturas, ou seja resolver a a questão das formações que preparam tais licenciados.
Estes,deverão esta nas salas de aulas do Fundamental e Médio com excelentes capacidades e habilidades.
Mas, de onde eles viriam para estar frente da infância e juventude(adolescentes ) ?
Simples: egressos de cursos de excelente qualidade ( públicos ou privados ) tendo se submetido ao melhor dos currículos e respectivos conteúdos programáticos ( disciplinas ), habilitando-se não só para o presencial como também para o virtual. Quanto a este último, nada existe, nada se propõe, é mistério abissal.

Até aqui, verdadeira esbórnia, incoerências e incongruências formativas. Com a palavra a educadora Eunice Duran. Aqui, não confundir práticas com estágios nem com atividades complementares.
Então, obtido tal grau de excelência, vamos conduzi-los para o trabalho nas salas de aulas do ensino básico de tal forma que efetivamente preparem os alunos à postulação da etapa seguinte, seja tecnológica ou bacharelado.
Com tal medida estaremos resolvendo alguns problemas:
a)eficiência e eficácia dos ensinos fundamental e médio;
b)proficiência para o ensino superior;
c)acabar com seletivos/vestibulares que unicamente se parametrizam pelo número de vagas admitidas por turno, conforme o CNE, que as IES, públicas ou particulares, se submetem, como se não houvesse disponibilidade territorial/espacial nelas para receberem mais alunos.
É preciso urgentemente acabar com essa camisa de força deixando à ociosidade milhões de carteiras e milhares de metros cúbicos ocupáveis. Temos pressa, muita pressa.
d)no particular seguinte, aqui sim, baixar normas de aprovação no mínimo 7,0(sete) para aprovação ao longo do curso, para evitar aprovações que não ganham uniformidade nacional pois bacharelar um com média final 5,0 e outro com média 6,0 ou 7,0 é promover o facilitismo brasileiro e da lei de Gerson.
e)abandonar a premissa que só Mestre e Doutor tenham espaço na universidade pois quem conhece o “chão da fábrica “ ( no mínimo graduados ) pode ensinar muito mais que os da “academia”. As maiores e melhores universidades do planeta avalizam tal assertiva.
f)propiciar subsídios ou incentivos para tais formações, junto às instituições privadas, de modo a quase gratificar tais cursos aos interessados, pois há alunos que custeiam seus estudos sem a menor perspectiva de zerarem os custos em quatro ou cinco anos após formados.

Como disse, há muito mais por ser dito e considerado nessa linha de pensamento: valorizar a formação de licenciaturas. Antes mesmo de crivar o ensino superior, o que pode ser concomitante até aguardar a primeira desova. Ou seja, plano/proposta de alcance no médio ou longo prazo. Não existe fórmula ou forma intermediária. É ou vai ou vai .

Requisitos para avaliação de proposta: MUITA CORAGEM E VONTADE POLÍTICA.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Fim dos Professores

(autoria desconhecida)

Está trafegando na internet o texto abaixo, do qual me aproprio.
roneysignorini@ig.com.br

CRÉDITOS : o e-mail que me chegou trazia no final as indicações:
Participação: Luciano Zanelli (Copacabana – Rio de Janeiro)
Formatação: Rosa Ro rosa-ro@uol.com.br

O ano é 2.109 D.C. - ou seja, daqui a cem anos - e uma conversa entre avô e neto
tem início a partir da seguinte interpelação:
– Vovô, por que o mundo está acabando?
A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom, vem a resposta:
– Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo.
– Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?
O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.
– Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?
– Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.
– E como foi que eles desapareceram, vovô?
– Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra direito do que veio primeiro, mas, sem dúvida, os políticos ajudaram muito. Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa.
Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos.

Estes foram ensinados a dizer “eu estou pagando e você tem que me ensinar”, ou “para quê estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você” ou ainda “meu pai me dá mais de mesada do que você ganha”. Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas públicas e particulares, estas, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo “gerenciar a relação com o aluno”. O professores eram vítimas da violência – física, verbal e moral – que lhes era destinada por pobres e ricos.
Viraram saco de pancadas de todo mundo.

Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse.
“Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular”, diziam os pais nas reuniões com as escolas. E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem no vestibular. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de idéias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas.

Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério.
Em seguida, os professores foram desmoralizados. Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor.
As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas “bem sucedidas” eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão, sindicalistas – enfim, pessoas sem nenhuma formação ou contribuição real para a sociedade.

Ah, mas teve um fator chave nessa história toda. Teve uma época longa chamada ditadura, quando os milicos colocaram os professores na alça de mira e quase acabaram com eles, que foram perseguidos, aposentados, expulsos do país, em nome do combate aos subversivos e à instalação de uma república sindical no país. Eles fracassaram, porque a tal da república sindical se instalou, os tais subversivos tomaram o poder, implantaram uma tal de “educação libertadora” que ninguém nunca soube o que é, fizeram a aprovação automática dos alunos com apoio dos políticos... Foi o tiro de misericórdia nos professores..

Não sei o que foi pior – os milicos ou os tais dos subversivos.
– Não conheço essa palavra. O que é um milico, vovô?
– Era, meu filho, era, não é. Também não existem mais...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Tá com a Razão mas vai Preso – Ultimato de uma Discussão

Prof. Roney Signorini – Consultor Educacional
roneysignorini@ig.com.br

Em artigo publicado em vários sítios, na última quinta-feira, dia 12, Roberta Muriel ( leia-se Carta Consulta – Editau ) publicou o artigo (www.abmeseduca.com ) que faltava para esconjurar as recentes medidas de avaliação propostas vias transversas para a avaliação das IES: Avaliação ? Contratem Um Cérebro, Urgentemente !!!. Recomendo sua leitura, também urgentemente, porque tem-se pela frente uma safra de avaliações in loco, calendarizadas. E mais, dar um “print” no texto para distribuir a todos os colaboradores de direção das IES. Fala nos diversos enroscos e “imbróglios” que sujeitam daqui pra frente a saúde das escolas superiores, à mercê e à deriva dos sistemas normativos, sem nexos de causa e de caso. Coisa do tipo “vamos ver no que dá”.

É dela também a afirmativa de muita propriedade que os problemas são inúmeros e a possibilidade de, mesmo seguindo os instrumentos, estarmos em falta com o atendimento à legislação é enorme. E a conseqüência já se sabe: não fez nada mas vai preso do mesmo jeito.

Com a saúde abalada pelos transtornos anteriores da prova fraudada, do vazamento de dados pessoais e mais agora com a questão da impressão das provas do Enem, o INEP está fervendo com graus além da ebulição. Alguma dúvida que há conspiração, sabotagem e demais lá dentro ? Senão isso, como explicar, incompetência, inabilidade, não são do ramo, desdém com milhares de instituições e milhões de alunos ? Bons tempos os de profa. Maria Helena Guimarães.

A irresponsabilidade do órgão é muita e chegou no fim da linha, a se cobrar do Ministério Público medidas saneadoras do ensandecimento regulatório ali dominante.

Como bem diz a autora, não se trata de aceitar ou não as mudanças, embora seja uma constante no setor. Até porque, como regra de vida, nada é mais certo do que as mudanças.

Mas, o jogo começou dia 2 último, o semestre está em curso com tudo locado e alocado.

E agora, especialmente quanto ao corpo docente, dispensa e contrata outros ?

Pode ser um jogo semântico: houve mudança, transformação, substituição, reposição ou modificação nos últimos dispositivos, principalmente o Ofício Circular 048, Ofício Circular 067, o Parecer Conaes 04 e o Projeto de Resolução nº 01, este último tratando do Núcleo Docente Estruturante (NDE)?

As milhares de IES pelo território estão sem ação ainda que interessadíssimas no atendimento das novas posturas, mas sem um amparo de assessoramento jurídico-educacional estarão todas sujeitas a apedrejadas, à moda iraniana.

As novas disposições mostram-se ardilosas até pela incúria na manutenção técnica do site do MEC, que insere o novo mas não retira o velho, deixando o consulente com expressão de ué !

Em boa oportunidade a CONSAE ( www.consae.com.br ), de Belo Horizonte, está programando com experts o seminário Regulação, Supervisão e Avaliação: aspectos jurídicos. Quem sabe aí estará a oportunidade para desembaçar o vidro, sem o que, com certeza, vai bater de frente. E vai machucar muito.