sexta-feira, 5 de junho de 2015

Criatividade x Inovação x Tecnologias



Por mais que se escreva sobre criatividade seu conceito nunca será entendido perfeitamente, porque varia de acordo com as percepções e crenças das pessoas. Há, no entanto, um ponto consensual: criatividade é a capacidade de gerar novos projetos, produtos ou ideias que, até o momento da criação, eram completamente desconhecidos. Essas ideias podem vir de uma pessoa ou da combinação de pensamentos, das experiências e das vivências de um grupo.
Ás vezes, os termos criatividade e inovação são confundidos. Criatividade é a geração da ideia; inovação é seleção e a viabilidade de torná-la real. O que nos interessa é tratar a criatividade para vencer desafios e resolver problemas, o que é o princípio dos educadores.
Empreender está mais na moda do que nunca e que muitos negócios surgem na internet com pouco ou quase sem nenhum investimento e com muita criatividade. Como o princípio é “quem não arrisca não petisca”, os internautas são instigados com sentenças otimistas e motivadoras, como as que se seguem:
  1. Não se preocupe com o fracasso, você só precisa estar certo uma vez.” –Drew Huston, fundador do Dropbox;
  2. Se você quer algo novo, tem que parar de fazer o velho.” –Peter Drucker, guru da administração;
  3. Ideias são commodities. Execução não o é.” –Michael Dell, fundador da Dell;
  4. “O bom é inimigo do ótimo.” –Jim Collins, autor do livro Good to Great;
  5. Você precisa dar o que o consumidor quer e encontrar um jeito de descobrir o que ele quer.” –Phil Knight, co-fundador da Nike;
  6. A melhor maneira de começar é parar de falar e começar a fazer.” –Walt Disney, co-fundador da Disney;
  7. Eu sei que se falhar não vou me arrepender, mas sei que deveria me arrepender de não tentar.” –Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon;
  8. Claro que você pode ter tudo. O que você vai fazer? Tudo é o meu palpite. Vai ser um pouco bagunçado, mas abrace a bagunça. Vai ser complicado, mas se anime com as complicações.Não vai ser nada como você achou que seria, mas surpresas são boas para você.” – Nora Ephron, diretora de cinema, produtora, roteirista e escritora;
  9. A decisão mais difícil é a de agir, o resto é meramente obstinação. Você pode fazer qualquer coisa que decidir fazer. Você pode realizar mudanças e assumir o controle de sua vida.” –Amélia Earhart, pioneira na aviação;
  10. Persiga uma visão, não o dinheiro. O dinheiro vai acabar seguindo você.” –Tony Hsieh, CEO da Zappos;
  11. Não crie limites para si mesmo.Você deve ir tão longe quanto sua mente permitir. O que você mais quer pode ser conquistado.” – Mary Kay Ash, fundadora da Mary Kay;
  12. Muitos querem emprego. Poucos querem trabalho. Quase todos querem ganhar dinheiro. Alguns se dispõem a produzir riquezas. Resultado? A maioria não chega muito longe. A minoria paga o preço e chega lá. Coincidências? Coincidências não existem.” –Flávio Augusto, fundador da Wise Up;
  13. Ideias são fáceis. Implementação é que é difícil.” –Guy Kawasaki, empreendedor;
  14. A sorte passa na frente de todo mundo. Alguns a agarram outros não.” –Jorge Paulo Lemman, empresário;
  15. Estou convencido de que cerca de metade do que separa os empreendedores de sucesso daqueles mal sucedidos é a pura perseverança.” –Steve Jobs, co-fundador da Apple;
  16. Alguns fracassos são inevitáveis. É impossível viver sem fracassar em alguma coisa, a não ser que você viva tomando tanto cuidado com tudo e simplesmente não viva.” – K. Rowling, escritora britânica conhecida pela série Harry Potter;
  17. É mais fácil pedir perdão do que permissão.” –Warren Buffett, diretor executivo da Berkshire Hathaway;
  18. Aquele que não tem um objetivo, raramente sente prazer em qualquer empreendimento.” –Giacomo Leopardi, poeta e ensaísta;
  19. Sonhos não se tornam realidade só porque você sonhou. É o esforço que faz as coisas acontecerem. É o esforço que cria mudanças.” –Shonda Rhimes, roteirista, cineasta e produtora de filmes e séries;
  20. O estresse causado por todo esforço para conquistar seu crescimento é muito menor do que aquele causado a longo prazo por uma vida acomodada, sem realizações e com todas as suas consequências.” –Flávio Augusto, fundador da Wise Up;
  21. A autoconfiança é o primeiro requisito para grandes empreendimentos.” –Samuel Johnson, escritor e pensador;
  22. Empreendedorismo, para mim, é fazer acontecer, independentemente do cenário, das opiniões ou das estatísticas. É ousar, fazer diferente, correr riscos, acreditar no seu ideal e na sua missão.” –Luiza Helena Trajano, presidente do Magazine Luiza;
  23. Não é um notável talento o que se exige para assegurar o êxito em qualquer empreendimento, mas sim um firme propósito.” – Thomas Atkinson;
  24. Independentemente do que você faça, seja diferente. Este foi o aviso que minha mãe me deu e eu não consigo pensar em um aviso melhor para um empreendedor. Se você for diferente, você se destacará.” –Anita Roddick, fundadora da The Body Shop;
  25. Se fizermos um planejamento e estabelecermos metas, o resultado tem de aparecer. Eu não gosto de bengalas, que é como eu chamo quando a pessoa chega e vai apresentando uma desculpa. Traga o problema e também uma solução.” –Sonia Hess, presidente da Dudalina;
  26. Às vezes, quando você inova, comete erros. É melhor admiti-los rapidamente e continuar a melhorar as suas outras inovações.” – Steve Jobs, co-fundador da Apple;
  27. Não acredite que você é incontrolável ou à prova de tolices. Não acredite que a única forma de seu negócio funcionar é por meio da perfeição. Não busque a perfeição. Busque o sucesso.” –Eike Batista, presidente do grupo EBX;
  28. Se os meus críticos me vissem andando sobre o Rio Tâmisa, eles diriam que é porque eu não consigo nadar.” –Margareth Thatcher, ex-primeira-ministra do Reino Unido;
  29. Em um mundo que está mudando rapidamente, a única estratégia que garante falhas é não assumir riscos.” –Mark Zuckerberg, co-fundador e CEO do Facebook;
  30. Não espere por um empurrão da inspiração ou por um beijo da sociedade na sua testa. Preste atenção. É tudo sobre prestar atenção. É tudo sobre captar o máximo que você puder do que está por aí e não deixar que desculpas e que a monotonia de algumas obrigações diminuam sua vida.” –Susan Sontag, escritora, crítica de arte e ativista.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Teimosia Mercurial



Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br

O gênio de Millor Fernandes era insuperável para sua época, como criativo e inventivo, via tudo sempre com grande simplicidade. Lembrando-se de um episódio, tentando garfar uma ervilha, o que parecia impossível pois ela sempre fugia-lhe pelo prato, mais tarde considerou que se tratava de uma ervilha mercurial. E é absolutamente certo. Quando o termômetro é quebrado e lhe escorre o mercúrio ninguém consegue pegar a gota.

Insistir em traçar um paralelo de análises na educação superior entre a pública e a privada, considerando uma e desconsiderando a outra vai-se além da miopia teimosa, é a cegueira.

Nos últimos anos começa a se generalizar entre os pesquisadores uma preocupação crescente com o significado e os efeitos do ensino privado ao lado do público.

No Brasil, as universidades constituíram, até a década de 1980, uma parte pequena do ensino superior. Além de instituições confessionais e de escolas superiores sem fins lucrativos criadas por elites locais, proliferou, já a partir da década de 1960, um outro tipo de estabelecimento: não-confessional, não-universitário e organizado como empresa que, explícita ou disfarçadamente, tinha como objeto principal o lucro, portanto, um negócio, como qualquer outro.

O que já estava claro e permeou o debate sobre o ensino superior foi o caráter preocupante da expansão desse tipo de estabelecimento privado. Assim, o ensino superior começou a produzir um combate dos intelectuais e estudantes ao ensino privado e em defesa da universidade pública. Ou seja, a beligerância cega nunca quis enxergar que a ascensão desse tipo de instituição surge senão pela fraqueza do Estado, a desídia com os (seus)próprios estabelecimentos públicos, com o absurdo de alunos considerados “excedentes” sem vagas nas escolas públicas, o aumento exagerado do corporativismo se enclausurando nos muros das universidades públicas e com ares de dominadores e posseiros intolerantes: a academia que não soma nem multiplica mas subtrai porque não agrega, não colabora, não coopera e claro, não ajuda.

Educação, um rio com duas margens distintas: a pública e a privada correndo em única direção mas a primeira dominada pela intenção separatista.
É necessário registrar que entre 1889 e 1918 foram criadas 56 novas escolas superiores, em sua maioria privadas. Data dessa época, portanto, a diversificação do sistema que marca até hoje o ensino superior brasileiro: instituições públicas e leigas, federais ou estaduais, ao lado de instituições privadas, confessionais ou não.

A oposição entre ensino público e privado, em sua origem, sempre esteve fortemente permeada pela oposição público versus confessional.
Em 1933, quando se iniciam as primeiras estatísticas educacionais, os dados indicam que as instituições privadas respondiam por cerca de 44% das matrículas e por 60% dos estabelecimentos de ensino superior. O conjunto do sistema, entretanto, era ainda de proporções muito modestas. O total do alunado compreendia apenas 33.723 estudantes. Durante o período Vargas, que se estendeu até 1945, o sistema cresceu lentamente. Nesse último ano, contava com cerca de 42 mil alunos, 48% dos quais no setor privado.

Como se vê, a pretensa hegemonia do setor público  educacional não vai além do papel e os números garantindo as realidades, como exemplo, em 1960 as públicas somavam 59.624 (56%) alunos enquanto que as privadas 42.067(44%) mas, a partir daí a expansão caminhou célere chegando ao ano 2001 com 939.225(31%) nas públicas e 2.091.529(69%) nas privadas.

No Brasil, as universidades públicas gratuitas foram o alvo preferido de uma constante reivindicação de ampliação de vagas. De fato, com o aumento da demanda, acumulou-se nelas um contingente de candidatos excedentes, constituído por alunos aprovados nos exames vestibulares que não podiam ser admitidos por falta de vagas. A admissão desses excedentes tornou-se uma importante reivindicação do movimento estudantil. Essa pressão começou a dar frutos já no início da década de 1960, quando o crescimento das matrículas se acelerou.

O setor privado, cuja participação oscilava em torno dos 45% até 1965, atingiu 50% em 1970, e, a partir dessa época, alcançou e manteve uma participação superior a 60%. Quando chegamos ao final da década de 1970, o sistema de ensino superior havia mudado muito e o desenvolvimento dos setores público e privado havia se dado em linhas divergentes.

Direcionados pelo objetivo de ampliar a lucratividade do empreendimento, pela captação da demanda disponível, o setor privado passou a ser governado pelo mercado. Criou-se, desta forma, o setor que corresponde ao que Geiger denomina “mass private sector”, ao lado de um setor público que se orientou no sentido de atender a uma demanda mais qualificada (Geiger, 1986).

A expansão do segmento setor privado, que podemos chamar de empresarial, se orientou para a satisfação dos componentes mais imediatos da demanda social, que consiste na obtenção do diploma. Essa tendência é reforçada por uma longa tradição cartorial da sociedade brasileira, que associa diploma de ensino superior ao acesso a uma profissão regulamentada e assegura a seus portadores nichos privilegiados no mercado de trabalho. O sistema privado dividiu-se internamente entre um segmento comunitário ou confessional não lucrativo — que se assemelhava ao setor público — e um segmento empresarial.

Nos anos 1980, o setor privado se orientou no sentido de ampliar o tamanho dos estabelecimentos por processos de fusão e incorporação de estabelecimentos menores, criando federações de escolas e procurando em seguida transformá-las em universidades, para ganhar autonomia e fugir dos controles do CFE. O Conselho Federal de Educação foi inundado com pedidos dessa natureza, e a atividade dos lobbies junto ao Conselho se intensificou. De 1975 a 1985, o número de universidades privadas permaneceu estável — vinte ao todo. Entretanto, cresceram, e muito, as federações de faculdades ou faculdades integradas. Essa nova forma de organização é reconhecida oficialmente apenas nas estatísticas de 1980, que indicam dez estabelecimentos desse tipo. Cinco anos depois, eram 58 e, em 1990, atingiram 74. O aumento do número de universidades privadas, por outro lado, é um fenômeno da segunda metade da década. Entre 1985 e 1990, o crescimento é de 145%, passando de vinte a 49.

No final dos anos 1980, um novo desvio no setor privado. Até essa época, as universidades privadas eram predominantemente confessionais ou comunitárias, sem fins lucrativos, e tendiam a se assemelhar às universidades públicas. O movimento de expansão das universidades particulares, que ocorre a partir de 1985, se dá graças à pressão do setor voltado para o ensino de massa, de finalidades lucrativas, com pouco interesse pelo desenvolvimento das atividades de pesquisa e de qualificação do corpo docente, atribuição das públicas.

A democratização do ensino, com a absorção da demanda de caráter mais popular, continuou na dependência crescente do ensino privado de massa, papel que lhe é reservado por excelência. O imediatismo do setor, por outro lado, não promoveu uma renovação de ensino que possa corrigir as deficiências da escolaridade anterior desse público e oferecer uma formação adequada às exigências crescentes do mercado de trabalho.

A margem esquerda desse rio da educação carece de novo traçado,  uma reforma administrativa do ensino público e da relação entre as instituições e o Estado de modo a quebrar o rígido centralismo burocrático e promover uma racionalização necessária na utilização de recursos disponíveis. O problema reside na ausência de autonomia administrativa e financeira para as universidades públicas. Sem essa autonomia, é impossível alterar a natureza da gestão e estabelecer um sistema de financiamento que associe o volume de recursos a algum critério de desempenho. Grande problema que felizmente não afeta as instituições privadas.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Precisa fazer isso, precisa fazer aquilo|



Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br

Não sabendo que era
impossível, foi lá e fez.
Jean Cocteau
 

A expressão é bem usual de quem não quer ou não sabe fazer, mas vive se manifestando com os verbos precisar e fazer, provocando e incitando alguém a realizar algo como se o mandante não tivesse tempo hábil, vontade, segurança e sobretudo habilidade/competência para ele mesmo resolver a questão. A exortação fica assim distanciada de um vocativo como “faça”, “aja”.
Que é preciso fazer todo mundo sabe, mas tem sempre alguém se insinuando com ares interpretativo-antecipativos que sugerem ter ele o domínio do assunto mas está deixando para outrem, num sentido de entrega ou de cobrança.
Tal situação me lembra a frase "Não sabendo que era impossível, foi lá e fez", muitas vezes atribuída a Jean Cocteau. Contudo, outros a atribuem a Mark Twain: "They did not know it was impossible, so they did it!".
Vinicius de Oliveira, dia desses, no site do Porvir, chegou com o título “Universidade precisa responder ao ‘vai lá e faz’” apoiado na pesquisa que a Anima Educação e Box1824 realizaram com 200 jovens com idades entre 16 e 24 anos, integrantes das classes A-B e C, de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, entre 2013 e 2014, apontando soluções para mudar a cara do ensino superior, como se fosse fácil e, arriscaria dizer, como se fosse possível, tão necessária e importantemente quanto urge.

Aqui neste mesmo espaço, por diversas vezes, levei os leitores a reflexões sobre como falar é fácil e difícil é executar. Sou franco apoiador da “fazeção”, o que exige outros espaços, outras teorias, outras cabeças, outras vontades que a academia nem sempre aceita e concorda, até porque, no mais das vezes, o acadêmico nem vai ao chão da fábrica. Nada de errado nisso, mas o corpo docente universitário precisa aceitar, estimular e incentivar que na sala dos professores seja necessário contar com especialistas e com isso ver ocorrer a complementação/interação entre a teoria e a prática. Aliás, a avaliação exercida pelo Inep deveria exatamente correr nessa direção e não ao contrário.

“Hoje a universidade tem a arrogância de dizer o que você precisa, não importando onde você esteja ou o que queira fazer”, explica Daniel Castanho, presidente do grupo Anima Educação. Para ele, o ambiente de ensino ideal é similar ao das redes sociais, como o Facebook. “A universidade precisa ser o lugar da discussão, da experiência, da prototipagem, onde se pode arriscar e ousar”, exemplifica.
 
A colocação ficou um tanto incompleta por deixar de abordar que essa é uma discussão para o MEC, para as instituições privadas e/ou públicas, se para todos os cursos, sejam de graduação ou tecnólogos e até onde ou quando se alcançará a exequibilidade de um projeto diferenciado de tal envergadura.

Como soluções, a pesquisa do Anima aponta para ações em cinco campos: engajamento do aluno, engajamento do professor, reapropriação do espaço físico, conexão entre universidade, mercado e sociedade e, por fim, uma nova lógica curricular. Ou seja, tudo indica que a proposta corajosa, evidentemente, passa por mudanças pensadas desde o Fundamental até o Superior e a tudo considerando como um projeto nacional, sem deixar de lembrar que caminha-se paralelo ao risco, grandes riscos, como exemplo, o desastre do Fies ocorrido recentemente. Um desvario, um delírio do poder, que inquieta e agita.
Nosso estudante tem inúmeras dificuldades a vencer, a partir de uma educação mal pensada, executada e trabalhada desde o ensino fundamental, passando pelo médio.

Ele disputa vaga com reservas de cotas, submete-se ao Enem para lograr um lugar ao sol na universidade, mas é obstado pela cessação do financiamento, submete-se a um trote animalesco, vê-se diante de greves infindáveis de professores, depara-se com uma realidade cultural abissal entre o que (não)aprendeu e o que vê pela frente.

Trabalha de dia para estudar à noite, tem elevados custos de transporte e alimentação, sem recursos para uma viagem ou até mesmo uma peça teatral, muito menos para um curso de língua, tóxico na carteira ao lado, insegurança total, saúde despencando ladeira abaixo e, quando tem pela frente a necessidade de uma prática ou estágio na área, é obrigado a declinar pelas incompatibilidades de todas as ordens. Que herói é esse com um colar de problemas pendurado no pescoço?

Aspecto dos mais relevantes e significativo é a questão das diretrizes curriculares em vigor e que embasa o exame do Enade para todos os cursos.

Quando se fala em “ir lá e fazer”, tal condição tem como imperativo aproximar o mercado de trabalho da universidade, e vice-versa, o que significa dizer pensar e praticar novos currículos com novos conteúdos, bem como pessoal docente capacitado, laboratórios desfrutando de altas tecnologias, tudo fundido no cadinho da criatividade e da inovação.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Arrumar o Homem


Sabedoria infantil narrada por Dom Lucas Moreira Neves, Jornal do Brasil, jan. 1997


Não boto a mão no fogo pela autenticidade da história que estou para contar. Não posso, porém, duvidar da veracidade da pessoa de quem a escutei e, por isso, tenho-a como verdadeira. Salva-me, de qualquer modo, o provérbio italiano: "Se não é verdadeira... é muito graciosa!"
Estava, pois, aquele pai carioca, engenheiro de profissão, posto em sossego, admitido que, para um engenheiro, é sossego andar mergulhado em cálculos de estrutura. Ao lado, o filho, de 7 ou 8 anos, não cessava de atormentá-lo com perguntas de todo jaez, tentando conquistar um companheiro de lazer.
A ideia mais luminosa que ocorreu ao pai, depois de dez a quinze convites a ficar quieto e a deixá-lo trabalhar, foi a de pôr nas mãos do moleque um belo quebra-cabeça trazido da última viagem à Europa. "Vá brincando enquanto eu termino esta conta", sentencia entre dentes, prelibando pelo menos uma hora, hora e meia de trégua. O peralta não levará menos do que isso para armar o mapa do mundo com os cinco continentes, arquipélagos, mares e oceanos, comemora o pai-engenheiro.
Quem foi que disse hora e meia? Dez minutos depois, dez minutos cravados, e o menino já o puxava triunfante: "Pai, vem ver!" No chão, completinho, sem defeito, o mapa do mundo.
Como fez, como não fez? Em menos de uma hora era impossível. O próprio herói deu a chave da proeza: "Pai, vocë não percebeu que, atrás do mundo, o quebra-cabeça tinha um homem? Era mais fácil. E quando eu arrumei o homem, o mundo ficou arrumado!"
"Mas esse garoto é um sábio!", sobressaltei, ouvindo a palavra final. Nunca ouvi verdade tão cristalina: "Basta arrumar o homem (tão desarrumado quase sempre) e o mundo fica arrumado!".
Arrumar o homem é a tarefa das tarefas, se é que se quer arrumar o mundo.