terça-feira, 29 de julho de 2014

Errando, Discitur (Errando, aprende-se)



Prof. Roney Signorini
Assessor e  Consultor Educacional

“Gato escaldado tem medo de água fria.” Ditado popular

Dia desses, assisti a interessante palestra proferida pelo técnico José Roberto Guimarães[1], para platéia formada por operadores da educação. Ele iniciou seu painel destacando a importância do erro e a sua aplicabilidade nos diversos setores, inclusive no dele. Contou que aprendeu muito com a observação de erros da sua equipe e dos adversários também, gerando utilidade em direção aos acertos. José Roberto enfatizou a necessidade de pesquisar, consultar, perscrutar sempre para saber e entender o que existe por trás dos erros. E destacou a necessária humildade no trato e na análise dos erros.

Acrescento: erros são como vacinas. Se com a vacina se busca a saúde, com o erro se busca a melhora na aprendizagem. O erro é, pois, fonte de informação e possibilidade de avanço cognitivo, se “inoculado” com planejamento e prudência.

No dicionário Houaiss, erro é definido como “desvio do caminho considerado correto, bom, apropriado; desregramento”; o Aurélio acrescenta “juízo falso, desacerto, engano”. Em outras palavras, erro leva a pecha de defeituoso, vicioso, imperfeito. Erro e acerto, no entanto, são irmãos xifópagos; são o direito e o avesso de um mesmo tecido.

Muito se discute, no terreno da lingüística, o conceito de erro e o que deve fazer o professor diante de realizações menos castiças. Há cerca de dois anos um livro didático provocou polêmica ao propor que frases como “Nós pega os pexe” devem ser aceitas, para que os alunos que assim se expressam se sintam “incluídos” e, a partir da discussão sobre elas, tenham acesso à norma culta, considerada a maneira correta de expressar-se.

Não só na lingüística, mas em qualquer setor da atividade humana, reconhecer o erro e analisá-lo significa fazer autocrítica, que é a base do autoconhecimento e do aprendizado, porque erro não criticado “passa batido” e tende a repetir-se indefinidamente. Quem erra por desconhecimento do seu erro precisa de tolerância, mas também precisa de crítica, para aprender.

Na área da educação, já está mais do que na hora de aprendermos com nossos erros. Por que nossa nota média no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) – nota de 0 a 10 que toda escola pública possui – é 4,2 no ensino fundamental 1 e 3,8 no ensino fundamental 2? Por que, segundo o Pisa 2006, estamos na posição 54 em matemática (dentre 57 países) e em 49º lugar em leitura (dentre 56 países)? Por que as notas do Enade revelam, em boa medida, que nosso aluno “desaprendeu” ao longo do seu trajeto universitário?

Esses são apenas alguns poucos resultados que escancaram nossa indigência educacional e que trazem impactos negativos para a nossa seara: as IES privadas.

Não há dúvida de que o Estado precisa aprender com seus erros e rever suas políticas para o ensino fundamental, para entregar ao ensino superior alunos mais bem preparados. (Não quero ser boca de Cassandra[2], mas estaria a USP, por exemplo, diante das últimas avaliações, sendo acometida do mesmo mal que se abateu sobre a escola pública fundamental desde a década de 70?...)
Raramente, no entanto, se ouve falar que alguma IES privada, de moto próprio, se lançou a pesquisar sua geografia, seus atores (docentes, discentes, funcionários, etc.), para com isso suprir eventuais desvios de rotas. A rigor, não se pesquisa nada e os erros nunca têm prevalência como objeto de avaliação e análise.
Onde existam, funcionando como devem, as CPAs (Comissão Própria de Avaliação) podem dar o norte magnético, pois sua função é encontrar fissuras, equívocos, falhas que à primeira vista podem passar despercebidas e, a partir delas, redesenhar a missão, a visão e as metas da IES.

É hora de humildade, de mea culpa, porque errando discitur.

 

[1] José Roberto Lages Guimarães (Quintana, 31 de julho de 1954), ou simplesmente Zé Roberto, é ex-jogador de vôlei e atual técnico da Seleção Brasileira de Voleibol Feminino. Considerado legendário pela Federação Internacional de Voleibol, é o único técnico no mundo campeão olímpico com seleções de ambos os sexos: a seleção masculina em Barcelona 1992 e a seleção feminina em Pequim 2008 e Londres 2012. Único tricampeão olímpico do esporte brasileiro, ele também é formado em Educação Física.
[2] Apolo apaixonou-se por Cassandra e ensinou-lhe os segredos da profecia. Mas, quando ela negou-se a dormir com esse deus, ele, por vingança, lançou-lhe a maldição de que ninguém jamais viesse a acreditar nas suas profecias ou previsões.

A Caixa de Ferramentas foi Aberta


Prof.Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br



Até mesmo a página da célula de São João Del Rei do Partido Comunista Brasileiro (PCB), pela internet, desandou com artigo sob o título “A falsa polêmica sobre os falsos conselhos populares petistas”.
O autor, Alex Lombello Amaral, postou em 3/6/2014 matéria batendo no Decreto 8.243, da presidente Dilma que trata de política de participação social, classificado por alguns como “golpista”, “bolivariano” e até “bolchevique”. Alex diz que é tudo uma farsa e que o decreto não dá poder nenhum aos tais “conselhos populares”.

E ele vai em frente, irado: “Portanto, são mais órgãos consultivos, como os conselhos inúteis que Lula criou logo que tomou posse e como os conselhos igualmente inúteis que existem em todas as cidades para cumprir leis malfeitas. Em resumo, não mudam em nada o regime político, não diminuem em nada o poder dos políticos, não aumentam em nada a participação popular. Verdadeiros Conselhos Populares são eleitos entre os operários nas fábricas, entre os soldados nos quartéis, entre os estudantes e professores nas escolas, não são órgãos consultivos indicados por governos corruptos”.

Pelo decreto fica criada a Política Nacional de Participação Social (PNPS), cujo objetivo é organizar a relação entre ministérios e outras repartições federais com a sociedade por meio de conselhos populares. Na contramão da iniciativa ficou o vice-presidente, Michel Temer, para quem o assunto deveria ser tratado em projeto de lei a ser discutido pelo Congresso. Um bloco de partidos também recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para derrubar a norma, tudo porque, conforme parlamentares e juristas, o decreto internaliza o risco de poder paralelo. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também avalia a medida, tudo porque o decreto embute um complexo sistema de consultas no qual a sociedade civil tem papel central. Para tanto, foram criados conselhos, comissões, ouvidorias, mesas de debates, conferências e fóruns, além de consultas públicas e audiências. Tudo sob o pretexto de consolidar a participação social como método de governo.

O suporte técnico e administrativo do sistema ficará por conta da Secretaria Geral da Presidência que ocupa os arts. 7º ao 9º, inclusive, do decreto com poderes exorbitantes.

Figuras ilustres como o ex-ministro Miguel Reale Jr., os ministros Gilmar Mendes e o ex Carlos Velloso, além de Marco Aurélio Mello já manifestaram inconformismo. A alegação é de que o decreto fere a alínea “a”, inciso VI do artigo 84 da Constituição, bem como o artigo 48, incisos X e XI. Ou seja, o Congresso Nacional levou boa rasteira do Executivo em matéria que lhe competia. Bem, até que o decreto possa ser derrubado, já que não deixa de ser autoritário, gerando, portanto, muitas desconfianças.

Da leitura do decreto, infere-se que os órgãos da administração, como os ministérios, deverão considerar essas instâncias de participação social quando formular, executar, avaliar e monitorar suas políticas, devendo produzir relatórios de como estão implementando a PNPS. Mas, isso já ocorre em muitos casos.
Por ora não está criado nenhum novo conselho, mas a norma define parâmetros na orientação de eventual pretensão de criação de novo conselho ou instância. E, é claro, não tenhamos dúvidas porque eles virão, até porque, o decreto “está pedindo” para surgirem.

O que importa(va) saber ainda não veio à tona, ou seja, como ainda não estão definidos os critérios para escolha dos integrantes da sociedade civil que participarão dos conselhos, qualquer cidadão/pessoa, grupos organizados, movimentos sociais integrarão tais conselhos em que medida?

Pelo Estadão do dia 10/6/2014, o ex-ministro Eros Grau deu seus tabefes dizendo que “o País tem uma Constituição que permite que o povo se manifeste e esse negócio de conselho popular e consultas talvez seja expediente para legitimar o ilegítimo”.

O que é preciso destacar é, sim, qual a intencionalidade de baixar um decreto de tal jaez, em momento de apreensões e expectativas como o que vivemos – antes das eleições e com um mal-estar intestino como o que salta da caixa de ferramentas e rasteja pelas grandes cidades, disfarçado de movimentos necessários.

domingo, 13 de abril de 2014

Tem Gato na Tuba ( na orquestra dos cursos universitários)

Prof.Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br


A origem dessa expressão vem de um músico que tocava tuba quando percebeu que o som do instrumento estava muito esquisito e não sabia a razão. Mas descobriu-se que tinha um gato dentro da tuba, o maior instrumento de sopro, emitindo o som por uma campana com um grande orifício/duto que leva aos registros. É convite expresso para abrigar um gato de pequeno porte.
Então, é quando algo parece estar errado, algo não esta soando bem.

É o caso das notícias envolvendo faculdades clandestinas que o Ministério Público investiga baseado em 70 denúncias de cursos universitários que funcionam em todo o país sem autorização do MEC. Um absurdo sem tamanho pois arranha todas as demais que funcionam  regularmente, podendo ser atingidas por imprecisão noticiosa, descuido, má intenção que leva ao estelionato educacional. Sem se falar no lesa-gente, ingênuos de plantão que de certa forma também conspiram pelas facilidades,  via de cumplicidade e acabam se apresentando como vítimas do processo.
Oportuno lembrar que
O MEC possui um site (http://emec.mec.gov.br/) no qual o estudante pode verificar se a instituição em que estuda/estudará está credenciada ou não.

O gato ficou “hospedado” por quase dois anos dentro da tuba e o instrumentista tocando a plenos pulmões sem acordar o bichano ? As denúncias recebidas pelas procuradorias regionais dos Direitos do Cidadão indicam que foram abertos “cursos de graduação e pós-graduação” sem sequer estarem credenciados ou com problemas no credenciamento.

Grande parte das denúncias/acusações surgiram das regiões Centro-Oeste e Norte, feitas por alunos com problemas para obter seus diplomas e ações do Ministério Público.  Propagandas irregulares e promessas não cumpridas pelas “instituições” brotavam aos borbotões pela mídia ocultando as arapucas.

A procuradoria do Pará passou a investigar as denúncias e, nos últimos dois anos, fechou 16 “cursos de graduação”  por não terem autorização oficial de funcionamento ou por descumprirem normas estabelecidas pela regulação do setor, demoradamente, tardiamente porque dois anos em educação podem significar milhares de ingressantes, incautos(?).
“Nos primeiros dois meses de 2014 foram fechados no Pará os cursos universitários do Instituto Brasileiro de Educação e Saúde (Ibes); e os cursos oferecidos em parceria pelo Instituto Educacional Convictu’s; pela Faculdade Aberta de Filosofia, Teologia, Educação Física e Pedagogia Religiosa (Faentrepe); e pela Escola de Formação Teológica e Profissional (Eftepro).”(O Globo)

Segundo a procuradoria regional dos Direitos do Cidadão do Pará, existe um esquema fraudulento em que os alunos fazem os cursos de maneira irregular mas conseguem o diploma de forma simuladamente regular.

E as irregularidades vão mais longe existindo uma faculdade credenciada pelo MEC em um estado da federação que passa a prestar serviços em outro estado sem ter a autorização para tal. Assim, o aluno pega o diploma através de um mecanismo chamado aproveitamento extraordinário de estudos, medida prevista na Lei 9.394/96 para alunos que efetivamente tenham extraordinário aproveitamento nos estudos, demonstrado por meio de provas e outros instrumentos de avaliação específicos, aplicados por banca examinadora especial, podendo ter abreviada a duração dos seus cursos, de acordo com a LDB.

Desse modo, a fraude investigada pelo MPF prova o contrário:  alunos que não adquiriram o conhecimento passam a ter certificados que atestam o estudo porque encontram uma flexibilidade enorme nessas “faculdades”. Pagam alguns meses de mensalidade e, logo depois, uma taxa para fazer um exame, que é oferecido como forma de ter o diploma mais rápido. Por atuarem irregularmente em determinados estados, as armadilhas fornecem os diplomas na sede onde são credenciadas. Engodo, embuste, conto-do-vigário. Foi o caso da Faculdade de Tecnologia ADI, que tem sede no Distrito Federal e atuava no Pará em parceria com outra instituição, a Unisaber.

E os desconformes se avolumam, irresponsavelmente, sem comprometimento com o bom fazer educacional, com irregularidades na gestão administrativa e acadêmica. Dentre elas estariam a mudança de local de funcionamento sem autorização do MEC, o não atendimento de prazos para protocolo de pedido de reconhecimento de curso, a não entrega dos diplomas aos concluintes dos cursos de graduação e o desrespeito à determinação de suspensão de matrículas de novos alunos. E o que é pior, se pavoneiam como tendo a marca da “garantia de construção de uma educação para o mundo que queremos”.

Com a palavra as autoridades educacionais.

E.T.
Num reino burocrático e cartorial como o que vivemos, papel e carimbo transitam como os ventos e são imperativos nas relações sociais sempre a exigir carteirinhas, desde que visem lucros, é claro. O desconforto gerado não está essencialmente nisso mas na possibilidade de falsificações, facilidades na
obtenção de documentos fraudados, INSS, etc.. Estão por aí os falsificadores de cédulas, de certidões, carteira nacional de habilitação, diplomas, escrituras, etc. etc. Como a última notícia na área criminal, a mídia noticia o caso de “motoristas” de helicópteros e aviões com credenciais fajutas pondo em risco a vida de milhares de pessoas.


 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Trote, se correr o “bixo” é pego



Rito de passagem para o inferno
Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br

O assunto e as discussões sobre o trote não podem terminar. Exigem muito mais reflexões do que a mídia destacou nas últimas semanas.
Parece que estão todos perplexos denunciando os exageros e gravitando em torno de um eixo vertical, mas que está inclinado, não perpendicular à sociabilização.

Avaliações periféricas sobre os eventos estão à margem de um processo social
que merece estudos mais aprofundados no que toca à ação e à reação humanas.
 
Os calouros de hoje estão todos aceitando a máxima de que diante de um bandido, num assalto, não reaja!
A quantidade de calouros diante do prédio da escola é mais numerosa do que a dos veteranos, em geral pequeno grupo, porque não é a totalidade dos mais antigos que se dispõe à farra do “bixo”, e os calouros constituem uma tribo própria.
Tantas perguntas caberiam buscando respostas para interpretar a passividade do calouro, cujo perfil mudou muito na última década caracterizando a geração X-Y ou Z.
 
O que deve transcender a avaliação comportamental desses jovens ingressantes perpassa uma análise de futuro, quando forem ao mercado de trabalho sem uma dose exata de arrojo, de busca de conquistas, de audácia empreendedora e determinação. Isso deve preocupar muito aos educadores.

Ficar a condenar a atitude dos veteranos é de muita mesmice, transparecendo que as críticas somente cabem aos agressores como algozes dos indefesos, mas a pergunta do dia é: por que calouros aceitam e se submetem, passivamente, à barbárie? E mais, em tais momentos, onde está/fica o Estado que deve proteger o cidadão, senão ao longe e a tudo observando mas sem nenhuma medida restritiva ou punitiva?
Ignoro se algum desses carrascos de maus instintos foi detido e conduzido à
delegacia. Mas, por urinar na rua tem-se que dar explicações ao delegado.
São as idiossincrasias insuportáveis.

Em Portugal, os trotes violentos podem ser rastreados a partir do século XVIII na Universidade de Coimbra. Não por coincidência, estudantes da elite brasileira que por lá realizaram parte de seu processo educativo, trouxeram a "novidade" para o território nacional. Em decorrência disso, surgiram desavenças entre veteranos e calouros que culminaram com a morte, em 1831, de um estudante da faculdade de Direito de Olinda, Pernambuco – seria a primeira – mas lamentavelmente não a última – vítima de um trote violento no Brasil.
Ao leitor ainda interessado no assunto trago o link da Wikipedia, que vale a pena ler (http://pt.wikipedia.org/wiki/Trote_estudantil), do qual extraí os dados anteriores. Na leitura, conheça algumas das vítimas que o texto compilou.

Lembrando um texto do formidável Sebastião Nery, esses desordeiros são quase cangaceiros das modernas avenidas nacionais: “Morto Lampião, Ângelo Roque, o “Labareda”, cangaceiro, terceiro na hierarquia do bando, logo depois de Virgulino e Corisco, entregou-se às autoridades de Geremoabo, no sertão da Bahia. Foi a Júri. Tarcílo Vieira de Melo, o promotor, acusou-o com agressividade. Oliveira Brito, Juiz, chamou-o de “desordeiro”. Labareda” levantou-se do banco de réu: – Desordeiro, não. Os senhores me respeitem. Não sou um desordeiro, sou um cangaceiro”.

Não se inquiete porque no segundo semestre escolar e ano que vem tem mais
arruaça, balbúrdia e desordem tudo na busca de autoafirmação – imposição pela força, mas não pela inteligência, cultura e educação. Déjà vu.

O debate pode ter até algum ponto de contato com a Síndrome de Estocolmo, que cria uma nefasta dependência e um círculo vicioso difícil de ser quebrado.
Mais alguns dias e o assunto entra na espiral do silêncio, como se nada tivesse acontecido, como se os eventos não deixassem forte marca residual e com isso vamos continuar tocando a vida sem escrúpulos e decência, como de resto, tantos outros fatos sociais e políticos que assoberbam o cotidiano do noticiário.


sábado, 25 de janeiro de 2014

A Gangorra Duvidosa (e a Formação)



Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br

Observações do cotidiano geram constatações irrefutáveis, como o simples olhar de alguém mais atento num parque de diversões, onde lá estão dois irmãos, ele mais velho e ela mais nova, por conseguinte mais leve. A brincadeira mal começou e terminou porque alguns segundos de sobe e desce o garoto não saia do chão, embora quisesse estar no alto, e a irmã, entre choro, por medo da altura quisesse estar em baixo. Brincadeira encerrada. Naquele instante não dava pra criar peso na menina nem subtrair a do garoto.

A cena chama a atenção para outra observação, da atualidade educacional e formativa, quando alguém pretende uma graduação e outro quer a formação técnica/tecnológica. O cenário é similar embora carregando outras variáveis e considerações, mas a questão dos “pesos” dos atores é fundamental. E peso aqui tem muito a ver com possibilidades, aspirações, capacidades, vocações, etc.
A situação/condição pendular fica mesmo definida quando o interessado se dá conta do fator primordial que é a empregabilidade ou não só isso, preponderantemente isso ? !

Que outras forças atuam, por qual combustível se é impelido na busca de um diploma de técnico(articulado-integrado com o ensino médio), de graduação ou de tecnólogo(superior) na gangorra educacional ?
Por que a educação privada não põe um pouco mais de peso no lado da menina da gangorra pois não ignora que as formações técnicas e tecnológicas estão em ascensão e as carreiras mais tradicionais estão amargando ociosidades, tanto nas salas de aula como no mercado? Ensino superior/graduação é para  a elite social/econômica/intelectual. São a ponta do iceberg e abaixo da linha d’água está  um mundo imenso e ainda imerso.

Com certeza, no horizonte da empregabilidade os salários determinam futuros mas as nuvens estão cedendo e a temperatura vai esquentar muito brevemente, a continuarmos com a economia livre.  Sob tal condição o jornalista Rodrigo Constantino, ao avaliar a questão na ótica de ganhos e salários foi bem claro. Diz ele:
“Em uma economia livre, as empresas se esforçam para atender da melhor forma possível seus clientes, e com isso aumentar tanto lucros como salários. Mas para isso é necessário um aumento de produtividade das empresas. Por decreto estatal a coisa não funciona.
O salário de livre mercado é basicamente resultado da produtividade do trabalhador. É por isso que os trabalhadores alemães ganham tão mais que os brasileiros, e não porque seu governo é mais bondoso. O Brasil possui sindicatos extremamente fortes e um governo demasiadamente intervencionista. Mesmo com tantas conquistas legais, temos um salário médio baixo em relação aos países mais livres, além da enorme informalidade. Países como Finlândia, Noruega, Dinamarca, Suécia, Alemanha, Cingapura e Suíça nem salário mínimo têm!”


Estariam os mantenedores aguardando alguma ação do mercado, do Congresso, dos estudantes ou das famílias deles ? Quem sabe das forças sindicais para mudanças urgentes de cenários político-econômicos ?
Na Europa, em média, os salários estão nas seguintes faixas:
Nenhuma Qualificação: (lixeiro, auxiliar de cozinha, auxiliar de pedreiro, doméstica)
1000 euros mensais + 13º e às vezes 14º. É o salário mínimo italiano.
Qualificação mediana: (porteiro, motorista de ônibus, digitador, cobrador de trem)
1200 euros mensais + 13º e às vezes 14º.
Qualificação técnica: (técnico em informática, manutenção, mecânico, eletricista)
1400 mensais + 13º e às vezes 14º.
Qualificação - Ensino Superior: Varia de acordo com o cargo (responsabilidade, hierarquia)
Médico/Advogado/Engenheiro: 2000-5000 euros mensais.
Ganhos de um autônomo: Varia muito, mas de maneira geral, a mão de obra é muito mais valorizada quando o indivíduo tem a sua própria atividade.
Encanador/Eletricista/Marceneiro: 25 euros por hora + custo da visita (mínimo 20 euros)
Médico: 80-150 euros a consulta
Outros: (advogado, engenheiro, dentista, fisioterapeuta) a partir de 20 euros/hora
Para os horistas deve-se considerar o volume de atendimentos diários(?).

O volume de estudantes que fizeram o último ENEM é um absurdo e não menos espantosa a quantidade mínima de aproveitados, em razão da escolha de cursos/carreiras. O resto vai amargar o futuro com a espera do ambicionado lugar comum de alguma graduação, quando hoje são oferecidos centenas de cursos técnicos-profissionais e tecnológicos ? Urge alguma medida usando as TICs para despertar a juventude “acomodada” e ainda na casa dos pais.

O Brasil vive nos últimos anos um processo de desenvolvimento que se reflete em taxas ascendentes de crescimento econômico. Tal processo de crescimento tem sido acompanhado de programas e medidas de redistribuição de renda que o retroalimentam. Evidenciam-se, porém, novas demandas para a sustentação deste ciclo de desenvolvimento vigente no País. A educação, sem dúvida, está no centro da questão, com as formações educativas de técnicas e tecnologias.

Abaixo o bacharelismo pois não só as empresas reclamam da oferta e qualidade de mão de obra no país como os índices de produtividade do trabalhador não estão aumentando, a exemplo do que ocorreu na indústria de transformação na qual ocorreu só 1,1% de aumento da produtividade entre 2001 e 2012. Mas, o salário médio dos trabalhadores subiu 169% ( em dólares).  Então, como estamos, ou melhor, como ficamos ?

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Fecha, não Fecha mas Fechou



Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br

O jornalista Leonardo Vieira, do jornal O Globo, alvoroçou a patuleia com suas publicações dos últimos dias 8 e 9, tratando do assunto Universidade Gama Filho e UniverCidade junto a milhares de interessados na sobrevivência das
duas tradicionais instituições no Rio de Janeiro, com apêndices pelo país. Leia abaixo os dois leads das matérias e na íntegra acompanhando os links apontados. Ontem, segunda-feira, 13, fechou. Descalabro total.

Ministro diz que Gama Filho e UniverCidade podem ser fechadas
RIO - (08/01/2013). A Universidade Gama Filho (UGF) e o Centro Universitário da Cidade (UniverCidade) serão descredenciados pelo Ministério da Educação (MEC) se não cumprirem as melhorias prometidas. Foi o que garantiu o ministro Aloizio Mercadante durante uma conversa com estudantes de ambas as instituições em Brasília. Nesta terça-feira, 50 universitários foram à sede do MEC exigindo um encontro com Mercadante. O grupo quer intervenção do governo na crise das universidades, mantidas pelo grupo Galileo Educacional.

Se a reposta das instituições fossem satisfatórias, não teríamos suspendido o vestibular. A suspensão é uma medida duríssima. Por quê? Com o problema que nós já temos, vamos permitir que outros estudantes entrem (...) Como permitir entrar numa faculdade nessas condições? Então já suspendemos. Já mostra que nós achamos que eles não estão cumprindo o termo de ajustamento de conduta (sic) - afirmou Mercadante, em tom enérgico, antes de completar: - E se não cumprirem (as promessas de saneamento), está no acordo que nós fizemos e que eles assinaram, fecha!  Leia a matéria na íntegra no link : HTTP://glo.bo/1ih4TNd  

Abandono toma conta do campus da Universidade Gama Filho
RIO - (09/01/2013)O cenário na sede da Universidade Gama Filho é triste. Carteiras entulhadas no pátio, janelas e portas quebradas, uma piscina olímpica suja, cadáveres da faculdade de Medicina em decomposição e laboratórios depredados por bandidos que invadiram o local. Enfrentando seguidas greves de professores devido a falta de salários e ameaçada com descredenciamento pelo MEC, a instituição tem seu campus principal, no bairro de Piedade, Zona Norte do Rio, aparentemente abandonado.

Assim como a UniverCidade, também administrada pelo grupo Galileo Educacional, a Gama Filho está afundada numa crise financeira. Muitos alunos já estão providenciando transferência para outras instituições. Na última terça-feira, O GLOBO esteve no campus de Piedade e constatou diversos problemas estruturais. Banheiros, sujos, dão espaço para uma família de gatos, pretos. No laboratório do curso de Medicina, cadáveres usados para fins didáticos apodrecem por falta de formol.  !  Leia a matéria na íntegra no link : HTTP://glo.bo/1bUoKw7  

São duas notícias estarrecedoras no seio educacional porque revelam desrespeito, incúria ou total despreparo das mantenças, além de servirem de alerta para o setor que às vezes busca na profissionalização de seus quadros diretivos gente que não é do ramo, cercando-se de pessoal que entende muito de bolsa de valores mas nada de processos educativos.
E, claro, podem as duas instituições chegar ao desplante de se acharem vítimas do algoz MEC(?).
Como cada caso é um caso e uma coisa não é outra coisa, a “crueldade” foi antecipada com um termo de ajustamento de conduta descumprido. Por assim, uma auditoria interna/externa tem a obrigação de apontar as mazelas que culminaram com tal estado de calamidade e não é nada difícil obter respostas quando talvez somente cotejando receitas versus despesas surgirá o vilão da história: se as despesas com folha de pagamento ultrapassavam os 40% seguidamente, é bancarrota inevitável.

Mais do que fechar, a punição deve ser exemplar e nada de regime semiaberto ou semifechado, como queiram, para os que gostam de copo meio cheio ou meio vazio. É prisão perpétua, mesmo. Estão com a palavra os órfãos, desamparados e desabrigados do sistema que não entrou com a intervenção em tempo para evitar tal desastre social, evitando a formação de mais um Movimento dos Sem Alguma Coisa.

O patrimônio é imenso mas nem um só centavo responderá pela angústia e desespero dos estudantes em curso, em tempos de tão poucos sonhos, sob o domínio geral do universo em desencanto.

Não se trata aqui de se socorrer do Código do Consumidor pretendendo os valores pagos ou a troca do produto porque com defeito.
Mesmo que uma auditoria encontre(asse) os motivos do descarrilamento do trem, no caso, não cabe ressarcimentos com juros e correções quando a inexorabilidade não permite retorno ao calendário do passado, para os que se encontram no meio ou no fim da jornada de uma graduação.  Trata-se de um crime sem absolvição. Fica a pergunta: e daí ? Vai pizza aí ?

Crianças, às vezes, nos fazem rir porque espontâneas demais, autênticas na inocência que chega às raias do incrível. E por assim, deixo um vídeo como anexo  para os leitores : Menina quer destruir escola em Dublin - Impagável. Tem 3"36. Assista.