domingo, 23 de novembro de 2014

“Professores” profissionais



Três são infelizes na lei divina: o que sabe
 mas não ensina, o que ensina mas não
faz e o que não sabe mas não pergunta.
--ditado latino --

Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br



George Bernard Shaw, certa feita, saiu-se com a frase quem sabe faz, quem não sabe ensina, muito utilizada para brincar com, ou denegrir, a imagem de professores.  Talvez parafraseando Aristóteles que dizia “Aqueles que sabem, fazem. Aqueles que compreendem, ensinam”. Uma não tem nada a ver com a outra mas provocam para a irritação ou para a brincadeira.

Walcyr Carrasco é reconhecidamente um autor de livros, peças teatrais,  principalmente novelas de TV. e às vezes se arrisca a dar asas também à sua formação de bacharelado em Jornalismo. E foi o que fez no último dia 17 na página 90 da revista Época com o esbofeteante título “A Universidade Burra”.
Ainda que com certa timidez, como quem pisa em ovos, o articulista saiu-se otimamente com sua leitura sobre a arte de ministrar aulas ou cursos “quando alguém até pode dar aulas numa faculdade só pela experiência, mas incomoda quem está no ‘esquema’”. Ou seja, o uso da mão do gato. Com certeza e com toda a razão pois ele estava falando de um dos mais conservadores nichos protegidos por corporativismo arraigado, de há muito. A continuar com a pretensão de docente será preciso observar as regras ditadas mais pelo MEC e menos pelas instituições de ensino, já que estas recebem “professor visitador”, palestrantes e conferencistas, até mesmo para workshop breve, para cursos de extensão ou atividades complementares, com ou sem diploma: Zé do Caixão faz sucesso onde quer que vá.
A universidade está aberta para receber tudo o que soma e multiplica. Docente mesmo, da caneta roxa, conforme o Sinaes, precisa registro observados todos os requisitos para a contratação via CLT. Pela oportunidade, conheci centenas de ótimos palestrantes que esgotavam o assunto em pouco mais de duas horas. Jamais se prestariam a seguir metodologicamente um conteúdo programático ao longo de um semestre, por 40 ou 80 horas. Patinariam no barro mesmo com tração nas 4 rodas.

Ao longo do texto estava subjacente a idéia de professor profissional, aquele que tem só a graduação (sem especialização, mestrado ou doutorado), quando tem.  Pode até se meter a lecionar, sem noções de didática e pedagogia, mas detentor de um conhecimento insubstituível e muito admirado pelos alunos, em razão da experiência, ele não vai além das primeiras aulas e se entrega, joga a toalha. O mais autêntico possuidor de reais habilidades e competências é o detentor das experiências do chão da sala e da profissão funcional.

Walcir “reclama” que os acadêmicos, um grande contingente, em sua maioria se dedicam a escrever teses que ninguém lê. E não fica por aí, disposto a estapear, justificando que os não acadêmicos incomodam porque não se adaptam ao esquema. Conforme ele, é o velho sistemão rançoso universitário brasileiro.
Entre inconformado e um tanto irado ele desabafa dizendo que fez Jornalismo na ECA, trabalhou nos mais importantes veículos da imprensa escrita, foi diretor de redação, etc. mas jamais foi convidado para dar um curso ou workshop e que embora (notoriamente) excelente autor de novelas ninguém nunca o chamou para ministrar um curso de roteiro, evidenciando a carência de um bom “network”. Por óbvio ele não procura(va) emprego mas teria desistido na primeira semana porque quando em contato com os alunos veria repetir-se o entrar e sair deles do recinto. Foi o que ocorreu ao proferir  uma palestra numa Faculdade do Rio de Janeiro, o que o irritou muito e o fez perder a concentração.

Como Walcir não é do ramo, vale informar que a fundação internacional Varkey Gems, sediada em Londres, ofereceu em outubro de 2013 um ranking que media o status dos professores em vinte e um diferentes países, selecionados e analisados pelo desempenho no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) sendo feitas 1 mil entrevistas. Foram considerados,  o status do professor, a recompensa recebida pelo trabalho e a organização do sistema de ensino. Os cinco primeiros, nessa ordem: China, Grécia, Turquia, Coreia do Sul e Nova Zelândia.  O último foi Israel e o penúltimo Brasil.

Mas, o professor Antonio Nóvoa, da Universidade de Lisboa, um convicto e zeloso dos fazeres educacionais defende que a boa formação do professor não passa apenas pela prática. A prática por si só não forma. O que forma é a reflexão sobre a experiência e a prática. Para ele, conhecer bem aquilo que se ensina é fundamental para a formação do profissional da educação,  definindo três instâncias essenciais para a formação: a)pessoa (professor) – formação inicial; b)coletivo (ambiente socializado)—indução profissional; e c)a escola (ambiente inovador ) – formação continuada.
Até porque, educação é uma espiral interminável. A formação nunca se conclui porque ela é contínua.

Por essas e por aquelas, Walcir não se desfaz da intenção de lecionar, argumentando que a universidade se distancia da realidade do mercado de trabalho, sentindo, ele e outros colegas de profissão, que seria bom compartilhar suas experiências, julgando-se apto e habilitado a dar aulas de roteiro. Entretanto, não quer seguir os passos da burocracia acadêmica. Ou seja, já sabe tudo de tudo em roteirização.

Mas há um contraponto levantado pelo professor Claudio de Moura Castro por seu artigo publicado em Veja (28/06/2013) com o título “Como tratar os professores profissionais”.
Ele inicia com o testemunho do diretor de uma das melhores escolas de Desenho Industrial da Suíça: “Aqui não temos profissionais do ensino. O que temos são profissionais que ensinam”.
Enquanto nas boas universidades do mundo é consagrada a prática de acadêmicos ensinarem nas áreas científicas e nas humanidades o contraste é que disciplinas profissionais são ensinadas por profissionais na ativa ou aposentados..

Para Castro, Érico Veríssimo só lecionou Literatura nos EUA porque não tinha os diplomas exigidos aqui, assim como Jacques Klein jamais foi convidado para ensinar piano porque tampouco tinha diplomas. Nessa área de artes a lista é grande pois acabou a figura do “notório saber” como a de João Carlos Martins, Diogo Pacheco, Pelé, dentre tantos outros. Salvo melhor juízo, nem graduação possuem. Caso folclórico, faz tempo, substituíram um professor com um reles bacharelado por um recém-doutor, ninguém menos que o magnífico arquiteto Sergio Bernardes.
E Moura Castro vai em frente no cotejo de simples graduados versus mestres e doutores, exacerbando das preliminares ao fulcro.
Na sua linguagem direta e coloquial, jogou pá de cal no serpentário das avaliações dos IGCs, CPCs e demais do Sinaes, tratando com o respeito que merecem aqueles que fazem parte do Time da Fazeção. Gente de que tanto as instituições de ensino precisam e carecem, os que conhecem como ninguém os chamados “chão da fábrica”.
Ele não perde a chance de dar um puxão de orelhas no MEC que deve reajustar as suas avaliações, tanto da graduação como da pós porque hoje as IES são punidas com notas mais baixas ao contratarem quem tem experiência em vez de doutores que nunca trabalharam no assunto do curso. É pura perversidade.
Ademais, comenta Moura Castro, é inevitável que um profissional requisitado e valorizado no mercado seja um professor horista mas as avaliações penalizam a IES que contrata profissionais experientes nesse regime. Inexiste a ubiqüidade de estar na sala e no local de trabalho, ou seja, impossível contratar
com dedicação parcial ou integral.



terça-feira, 11 de novembro de 2014

Desvios comunicacionais na educação




Prof. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br


Há alguns dias li um texto de Lenio Luiz Strek que comentava sobre o “louco de palestra”, sorvido de uma matéria publicada pela revista Piauí com a chancela de André Czarnobai, ambos cobertos de razões, considerando agora outro excelente artigo do economista Gustavo Ioschpe, publicado pela Veja de 8/11/14 com o título Estamos acabando com o país. O artigo tinha como pano de fundo uma palestra que ele proferiu no Rio de Janeiro.

Foi fácil me transportar para a palestra de Gustavo vendo à frente os “loucos de palestras”, ou melhor, os que querem ocupar o lugar do palestrante interferindo com as mais inoportunas e absurdas intervenções.

E foi o que se deu quando chegaram as perguntas do público assistente, em sua maioria professores, repetindo perguntas com o sufrágio reducionista, para não dizer alienado, todos falando em qualidade de ensino pela linguagem, matemática e ciências, conhecimentos avaliados pela Prova Brasil, Enem e Pisa, quando a função da educação transpassa os simplismos dessas colocações. Outras posturas de igual magnitude na formação dos jovens, crítica e conscientemente, são imperativos para um comprometimento nacional. Mas, não, perdeu-se ótima oportunidade para justamente trazer ao debate questões que estão minando cabecinhas e cabeções quando o Muro de Berlim foi ao chão, estatelado, em pó. E conforme Gustavo, ainda tem muita gente  sonhando em descer a Sierra Maestra com algum parente de Che, dadas as mãos.


Gustavo não se deixa vergar mas que está(va) irado isso é bem visível e aliando inaceitação com revolta disparou: “Longe de ser exceção, essa dinâmica é a regra: escolas e universidades de entidades privadas, algumas inclusive com fins lucrativos, estão entupindo o cérebro de seus alunos com a mais rasteira e ignóbil doutrinação política marxista. Depois, quando esses alunos se tornam adultos e passam a comandar o país, os donos e diretores dessas escolas e universidades passam anos a fio reclamando (com razão) do intervencionismo estatal e do viés antiempresarial dos líderes... que eles mesmos formaram!”

Estão metralhando o próprio pé, sem intencionalidade ou é só miopia ou visão de curto prazo como diz o articulista ?.

O estarrecedor e autenticamente verdadeiro, cabal, fica por conta da afirmativa de que as áreas de formação são e sempre foram  muito desprestigiadas. Formam maus professores, mas damos de ombros e as cobranças são poucas ou nenhumas para mudar-se o quadro e mesmo o mau professor não encontra dificuldade para encontrar trabalho, tem o diploma e nada mais, única exigência. Não se cobra competências e basta professar o que o aluno quer ouvir, optando por falar do papel revolucionário do professor, da missão grandiloquente da formação do cidadão crítico etc. É a opção pelo caminho do ensino raso recheado por profundo doutrinamento. E assim se formam os professores que formarão as futuras gerações, conforme Gustavo, coberto de razão.


É bem possível que ao ler Gustavo você seja dominado por um misto de compaixão e desprezo pelos proprietários de nossas universidades, investindo hoje na criação do seu opositor de amanhã. Que fique claro, conforme Gustavo, que eles não são os maiores culpados pela situação que vivemos mas sim você.que tem recursos provavelmente, para pôr seu filho em uma escola particular e assinar uma(s) boa(s) revista(s) de informação.


Acompanhar a vida acadêmica de um filho é hoje de vital importância. A grande maioria dos pais ignora que seus filhos estão ouvindo nas escolas críticas contra o capitalismo e a burguesia brasileira e abundantes elogios ao modelo cubano e outros lixos comuno-socialistas, traduzidos por uma panfletagem esquerdista travestida de intelectualidade.

Educação é um universo que exige segurança porque pode não haver tempo nem caminhos para correção de rotas. A grande maioria de alunos que estudam em escolas públicas têm pais com instrução  muitas vezes insuficiente, razão porque não conseguirão saber que seu filho está sendo vitimado pela historiografia marxista, ou que há outras historiografias possíveis.

Gustavo finaliza com “Estamos criando pessoas que desconfiam da democracia, dos valores republicanos, de sua própria capacidade empreendedora. Se as lideranças do país não estiverem presentes da discussão mais importante -- a de valores, de identidade, de aspirações nacionais —, continuaremos colhendo atraso e frustração. Não se constrói um país desenvolvido sem elites. Esse debate é indelegável.”
 “Já passou da hora de termos uma escola apolítica, sem doutrinação, que consiga fazer com que nossos alunos pensem e tenham os instrumentos para pôr de pé seus sonhos de vida. Não podemos nos furtar desse debate nem adiá-lo. Ele começa hoje, na sua sala de jantar, na escola de seus filhos. Aproveite essa liberdade enquanto a temos.”


A grande realidade dos fatos é que supúnhamos que isso pudesse acontecer e sempre adiamos isso mas a fragilidade social em que nos encontramos, suscetíveis a tudo, insegurança, inflação, desatendimento na saúde, desemprego, etc. etc. ainda temos de acompanhar a educação ideológica que vem sendo proposta nas escolas, bem afinada com o bolivarismo que ronda os muros nacionais.

 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Murro em Ponta de Faca



Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br

Em decorrência dos dados divulgados pelo Censo da Educação Superior (Inep), referentes ao último Censo da Educação Superior (2013), a mídia correu interpretar deitando apocalipses e enervando o setor, que, bem ou mal preparado, deverá engolir o quadro quem sabe por quantos anos.
O noticiário, recheado de algumas más notícias, outras nem tanto, tiveram os títulos abaixo que dão clara mostra de como está e o que virá.
Matrículas no ensino superior crescem 3,8%, taxa inferior à do último censo (EBC)
O Brasil tem 7.305.977 estudantes matriculados em cursos de graduação no ensino superior, segundo o Censo do INEP divulgado na terça-feira (9). Os números são do ano de 2013. São 268.289 matrículas a mais que em 2012, um crescimento de 3,8%, sendo 1,9% na rede pública e 4,5% na rede privada.
O crescimento foi inferior em relação ao censo anterior, quando o número de matrículas aumentou 4,4% de 2011 para 2012.
Deste total de estudantes universitários, 5,3 milhões (73,5%) estão nas instituições particulares. O restante (1,9 milhão) se divide entre instituições federais (1,1 milhão), estaduais (604 mil) e municipais (190 mil). Os alunos matriculados em cursos de graduação estão distribuídos em 31.866 cursos, oferecidos por 2.391 instituições. A maior parte formada por universidades e faculdades particulares, 2.090 e o restante são instituições públicas (301).
Número de formandos no ensino superior cai pela 1ª vez em 10 anos (Folha de S.Paulo)
Entre 2012 e 2013, o número de concluintes de graduação no país caiu 5,65% -essa é a primeira queda ao menos desde 2003.
No ano passado, foram 991.010 concluintes, frente a 1.050.413 em 2012.

Cai o ritmo de expansão de matrículas no ensino superior público (Folha Online)
Cai o número de universitários brasileiros que concluem a faculdade (JN)

Matrículas no ensino superior aumentam 85,6% em 11 anos (Uol)
Entre 2003 e 2013, o número de estudantes em cursos superiores cresceu 85,6% mas vem caindo desde 2008, quando cresceu mais de 10% em um ano. Entre 2012 e 2013, o aumento foi de apenas 3,9%.
Matrículas em cursos tecnológicos aumentam 5,4% (Exame)
As matrículas em cursos tecnológicos de educação superior cresceram 5,4% no período de 2012 e 2013. No ano passado responderam por 13,6% do volume de matrículas na educação superior. Em 2003 o porcentual era de 2,9%. Os cursos superiores tecnológicos, de menor duração e formação mais específica, foram os que mais cresceram. Nos últimos 11 anos, o número de cursos aumentou mais de 500%, puxado principalmente pelo aumento de vagas na rede privada.
Queda no número de diplomas se deveu a processos de supervisão, diz MEC (Uol)

Educação a distância tem queda no número de matrículas (EM)
Os cursos de educação a distância representam cerca de 15% das matrículas de graduação no país. O número caiu 5% em relação ao apurado no último censo, de 2012. Em dez anos, houve um aumento de quase 25 vezes. Em 2003, havia 52 cursos desse tipo no país; no ano passado, o número chegou a 1.258.
Em 11 anos, oferta de cursos de graduação a distância cresce 24 vezes (Uol)
Os cursos de graduação a distância registraram crescimento de 15,7% entre 2012 e 2013.
Nos últimos 11 anos, a oferta de cursos na modalidade cresceu 24 vezes. Do total de cursos oferecidos no ano passado, 240 eram bacharelados, 592 licenciaturas e 426 tecnológicos.
O volume de matrículas em cursos da modalidade também registrou alta.
Entre 2012 (1.113.850) e 2013 (1.153.572), o crescimento foi de 3,4%, com 39.722 inscrições a mais.
O levantamento mostra também que os cursos a distância oferecidos em instituições privadas de ensino superior representaram 87% do número de inscritos, com 999.019 matrículas.
As universidades foram as instituições que mais concentraram número de matrículas, representando 71% das inscrições na modalidade EAD.
Número de estudantes do ensino à distância está cada vez maior (Jornal da Globo)
Com salário médio de R$ 1.868, pedagogia ainda é 3º curso mais procurado do Brasil (R7)

Modelo de expansão do ensino superior dá sinais de limite (OESP)
Conforme Bruno Morche (UFRS) o Censo do Inep mostra uma redução no ritmo de expansão do ensino superior brasileiro com a diminuição no processo de ampliação das matrículas, nas públicas e nas particulares. Para ele, o modelo brasileiro baseado em um pequeno número de instituições públicas totalmente gratuitas e um grande setor privado, possivelmente encontraria limites no início desta década.
E ele expõe os três motivos: (1)quanto ao setor público encontra limites de financiamento do governo para uma expansão significativa dado o elevado custo por aluno, que em 2010 chegou a 13 mil dólares; (2) no privado, os limites estão na diminuição da demanda pelo alto número de vagas que já foi oferecido e o limite da capacidade econômica da população; (3)problema recorrente das baixas taxas de acesso e conclusão do ensino médio que representam um funil no acesso ao ensino superior.

Paim destaca crescimento do número de mestres e doutores e defende qualidade (MEC)
 
Em nenhuma das leituras ocorreu contextualização com a situação econômica do país o que inocenta as mantenças, de certa forma, como sem culpa no cartório educacional. Ou seja, a exclusividade, a culpabilidade, fica na conta do governo que insiste em dois elementos constrangedores: a mentira como habitual e a incompetência.

Com relação ou não às campanhas políticas que ora são apresentadas, a mídia, ou melhor, os especialistas do mundo econômico e financeiro estão vestidos de belo smoking para dançar a derradeira valsa do governo petista com direito a fogos de artifício ao final. E tal alegria é apoiada no que os experts chamam de “as várias mentiras”. Que de alguma maneira perpassam aos empreendimentos da educação privada. Ou melhor, esmurram-na. Ao governo, aparentemente, perder um, dez, cem ou mil alunos nos espaços públicos pouco ou nada afeta. Afinal, a folha de pagamento já está saldada desde o plano orçamentário anterior, tudo garantido.

Em tempos de racionamento, a iniciativa privada, com certeza vai puxar o breque de mão e “racionar” mão de obra, consumo de energia, magreza na administração, bulimia na segurança, desnutrição nas bibliotecas e anemia nos laboratórios, etc. etc.

Sobre a política monetária, que teria sido um êxito, existe outra falácia porque a inflação está batendo na casa dos 6,50% sem se falar no represamento de cerca de dois pontos de inflação através do controle de preços de combustíveis, energia e câmbio, Que indústria, empresa, comércio ou prestação de serviços suporta isso atingindo diretamente o bolso do trabalhador, do jovem pretendente à educação superior? Não esquecer que tal pretensão, hoje, está na cabeça da moçada classe C e D, os mais atingidos porque os das classes A e B estão blindados com riqueza aplicada em ativos que remuneram acima da inflação.
O governo insiste na alegação que a crise vem de fora. E daí? Políticas econômicas ortodoxas de nossos vizinhos, além de reformas políticas, cresceram de 4,0% a 5,6% ao ano entre 2008 e 2013 enquanto a média do PIB brasileiro na administração Dilma deve ser de 1,7%. Heterodoxia pura.
Que tal? Isso não leva nem segura aluno na sala de aula.

As inteligências ministeriais dizem que a política neoliberal vai aumentar o desemprego, mas o crescimento econômico da era Dilma é o menor desde Floriano Peixoto, governo terminado em 1894. Em outra informação, os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados(Caged), de maio, apontaram a menor geração de empregos desde 1992, junho foi o pior desde 1998 e julho, o pior desde 1999. Então, estamos bem na fita ou vamos continuar a dar ouvidos à mitomania desenfreada? Quem vai gerar desemprego é, isto sim, a nova matriz econômica. É esperar para ver.
Enorme motivo impeditivo em levar o alunado a estudar: públicas são poucas, particulares custam caro(?).
Há contra argumentos triviais: a de que a oposição quer acabar com o reajuste do salário mínimo e já firmemente contestados. O que a sociedade não se deteve é que o aumento real do salário mínimo entre 1994 e 2002 foi de 4,7%, de 5,5% ao ano entre 2003 e 2010, e de 3,5% ao ano entre 2011 e 2013.
Pode? Nos períodos, quanto tudo subiu de preço? E o dragão da inflação que corrói o aumento do salário nominal? Mais uma razão para afastar a juventude das escolas.
Então, a economia não tem tudo a ver com o quadro educacional?

Há quem argumente que a taxa de ingressantes de jovens das classes A e B não cresce porque existe uma queda do crescimento dessa população jovem
e que o ingresso das classes C e D, embora elevado(?) não é o suficiente para compensar.
Mas, há até quem proponha soluções(?).

Para resolver há uma campanha a desenvolver: particulares colaborarem criando estratégias para que haja menos evasão no ensino fundamental e médio. Também vale o governo incentivar a imigração ou as escolas buscarem alunos em outras paragens. Não é o que o resto do mundo faz, estimulando
estudos locais?

terça-feira, 29 de julho de 2014

Errando, Discitur (Errando, aprende-se)



Prof. Roney Signorini
Assessor e  Consultor Educacional

“Gato escaldado tem medo de água fria.” Ditado popular

Dia desses, assisti a interessante palestra proferida pelo técnico José Roberto Guimarães[1], para platéia formada por operadores da educação. Ele iniciou seu painel destacando a importância do erro e a sua aplicabilidade nos diversos setores, inclusive no dele. Contou que aprendeu muito com a observação de erros da sua equipe e dos adversários também, gerando utilidade em direção aos acertos. José Roberto enfatizou a necessidade de pesquisar, consultar, perscrutar sempre para saber e entender o que existe por trás dos erros. E destacou a necessária humildade no trato e na análise dos erros.

Acrescento: erros são como vacinas. Se com a vacina se busca a saúde, com o erro se busca a melhora na aprendizagem. O erro é, pois, fonte de informação e possibilidade de avanço cognitivo, se “inoculado” com planejamento e prudência.

No dicionário Houaiss, erro é definido como “desvio do caminho considerado correto, bom, apropriado; desregramento”; o Aurélio acrescenta “juízo falso, desacerto, engano”. Em outras palavras, erro leva a pecha de defeituoso, vicioso, imperfeito. Erro e acerto, no entanto, são irmãos xifópagos; são o direito e o avesso de um mesmo tecido.

Muito se discute, no terreno da lingüística, o conceito de erro e o que deve fazer o professor diante de realizações menos castiças. Há cerca de dois anos um livro didático provocou polêmica ao propor que frases como “Nós pega os pexe” devem ser aceitas, para que os alunos que assim se expressam se sintam “incluídos” e, a partir da discussão sobre elas, tenham acesso à norma culta, considerada a maneira correta de expressar-se.

Não só na lingüística, mas em qualquer setor da atividade humana, reconhecer o erro e analisá-lo significa fazer autocrítica, que é a base do autoconhecimento e do aprendizado, porque erro não criticado “passa batido” e tende a repetir-se indefinidamente. Quem erra por desconhecimento do seu erro precisa de tolerância, mas também precisa de crítica, para aprender.

Na área da educação, já está mais do que na hora de aprendermos com nossos erros. Por que nossa nota média no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) – nota de 0 a 10 que toda escola pública possui – é 4,2 no ensino fundamental 1 e 3,8 no ensino fundamental 2? Por que, segundo o Pisa 2006, estamos na posição 54 em matemática (dentre 57 países) e em 49º lugar em leitura (dentre 56 países)? Por que as notas do Enade revelam, em boa medida, que nosso aluno “desaprendeu” ao longo do seu trajeto universitário?

Esses são apenas alguns poucos resultados que escancaram nossa indigência educacional e que trazem impactos negativos para a nossa seara: as IES privadas.

Não há dúvida de que o Estado precisa aprender com seus erros e rever suas políticas para o ensino fundamental, para entregar ao ensino superior alunos mais bem preparados. (Não quero ser boca de Cassandra[2], mas estaria a USP, por exemplo, diante das últimas avaliações, sendo acometida do mesmo mal que se abateu sobre a escola pública fundamental desde a década de 70?...)
Raramente, no entanto, se ouve falar que alguma IES privada, de moto próprio, se lançou a pesquisar sua geografia, seus atores (docentes, discentes, funcionários, etc.), para com isso suprir eventuais desvios de rotas. A rigor, não se pesquisa nada e os erros nunca têm prevalência como objeto de avaliação e análise.
Onde existam, funcionando como devem, as CPAs (Comissão Própria de Avaliação) podem dar o norte magnético, pois sua função é encontrar fissuras, equívocos, falhas que à primeira vista podem passar despercebidas e, a partir delas, redesenhar a missão, a visão e as metas da IES.

É hora de humildade, de mea culpa, porque errando discitur.

 

[1] José Roberto Lages Guimarães (Quintana, 31 de julho de 1954), ou simplesmente Zé Roberto, é ex-jogador de vôlei e atual técnico da Seleção Brasileira de Voleibol Feminino. Considerado legendário pela Federação Internacional de Voleibol, é o único técnico no mundo campeão olímpico com seleções de ambos os sexos: a seleção masculina em Barcelona 1992 e a seleção feminina em Pequim 2008 e Londres 2012. Único tricampeão olímpico do esporte brasileiro, ele também é formado em Educação Física.
[2] Apolo apaixonou-se por Cassandra e ensinou-lhe os segredos da profecia. Mas, quando ela negou-se a dormir com esse deus, ele, por vingança, lançou-lhe a maldição de que ninguém jamais viesse a acreditar nas suas profecias ou previsões.